A (AUTO)ESCOLA DA VIDA REAL
- Rodrigo Vargas

- 17 de nov.
- 2 min de leitura

Nas minhas lembranças do Facebook, encontrei um vídeo em que uma pessoa comum acompanhava, dentro de um hospital, o atendimento a uma vítima de atropelamento. A cena terminava com a notícia mais dura: o óbito. Aquilo me trouxe imediatamente à discussão atual sobre o fim da obrigatoriedade das aulas no processo de formação de novos condutores.
Lembrei do meu próprio percurso acadêmico. Durante a faculdade, muitas disciplinas optativas eram vistas como meras “encheções de linguiça”, conteúdos periféricos que não fariam falta nenhuma. Porém, ironicamente, algumas delas foram justamente as que mais me marcaram. Trouxeram bagagem, ampliaram horizontes e tiveram um impacto formativo maior do que grande parte das obrigatórias.
E então me pergunto: por que não imaginar algo semelhante — e ainda mais transformador — no processo de habilitação? Para além das aulas teóricas e dos vídeos batidos (como aquele famoso do Pateta no trânsito), por que não oferecer aos futuros condutores uma imersão vivencial? Um período acompanhando a rotina de uma UTI de trauma, uma equipe do SAMU, ou mesmo um turno com a fiscalização de trânsito no atendimento a ocorrências com vítimas.
Porque há aprendizados que não cabem nas paredes da autoescola. Não nascem dos livros didáticos. Não se encaixam em um currículo engessado.
O verdadeiro conhecimento, às vezes, está no real: no cheiro da fumaça e do pneu queimado, no som agudo da sirene, no choro abafado vindo de dentro das ferragens, no vermelho escuro que escorre sobre o asfalto quente.
Talvez o aluno não saísse de lá sendo o melhor condutor do mundo. Mas sairia consciente. Consciente de que cada escolha no trânsito — cada distração, cada pressa, cada imprudência — tem consequências que não são abstrações, mas vidas.
E consciência, no trânsito, salva mais gente do que qualquer enfeite no currículo.















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