UBER, 10 ANOS DEPOIS: O QUE (DES)APRENDEMOS SOBRE MOBILIDADE EM PORTO ALEGRE
- Rodrigo Vargas

- 19 de nov.
- 2 min de leitura

A Uber completa uma década em Porto Alegre, e talvez este seja um bom momento para fazermos algo que raramente fazemos no trânsito: olhar pelo retrovisor. Em 2015, quando o aplicativo chegou à cidade, a novidade parecia apontar para um futuro mais moderno, confortável e eficiente. Carros limpos, motoristas oferecendo água, balinhas e um atendimento quase cerimonioso davam ao serviço uma aura de “transporte premium acessível”.
Mas a mobilidade urbana, como qualquer organismo vivo, muda. E muda rápido.
A popularização dos aplicativos provocou um efeito dominó: passageiros migraram de ônibus, lotações e táxis; motoristas profissionais conviveram com novos concorrentes; e a cidade inteira redefiniu seus trajetos, prioridades e até expectativas sobre o que significa “se deslocar”.
A matéria do Jornal do Comércio mostra dois lados de uma história que Porto Alegre conhece bem: motoristas que encontraram no aplicativo flexibilidade, renda e autonomia; e o outro lado, menos glamouroso, de jornadas de 14 a 15 horas, renda espremida pelo aumento dos custos e pela desvalorização do serviço ao longo dos anos. Aquele motorista que oferecia água gelada em 2015 hoje precisa contar quilômetros e centavos para fechar o mês.
É irônico perceber que um serviço concebido para ser alternativa ao transporte público acabou se tornando, para muitos, o substituto quase absoluto — especialmente em deslocamentos curtos. O resultado? Uma pressão silenciosa sobre o trânsito, mais carros circulando e menos usuários no transporte coletivo, justamente quando a cidade mais precisava fortalecê-lo.
E aqui surge a reflexão essencial: a Uber melhorou a vida individual de milhões de deslocamentos, mas isso necessariamente significou uma melhora coletiva?
Do ponto de vista dos passageiros, a equação parece simples: conforto, previsibilidade e ar-condicionado. Do ponto de vista dos motoristas, a matemática é bem mais dura: desgaste físico, insegurança, altos custos e um modelo de trabalho que promete liberdade, mas frequentemente entrega exaustão.
A Uber completou 10 anos. Porto Alegre também completou 10 anos sendo moldada por ela. Agora, a pergunta que deveria nos mover para os próximos 10 é outra:
Estamos construindo uma cidade que nos transporta — ou apenas uma cidade que nos carrega?
Se a resposta ainda não é clara, talvez seja porque continuamos olhando só para as viagens individuais, e não para o caminho coletivo que percorremos como sociedade.














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