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QUANDO O TRÂNSITO É TANTO QUE A SOLUÇÃO VIRA O PROBLEMA

QUANDO O TRÂNSITO É TANTO QUE A SOLUÇÃO VIRA O PROBLEMA



Recentemente, um amigo compartilhou no LinkedIn uma charge tão simples quanto perturbadora. Nela, um casal justifica levar o filho de carro à escola com a seguinte frase: “Há muito trânsito para o nosso filho ir a pé para a escola, então nós o levamos de carro.”

A legenda não poderia ser mais direta: demanda induzida.


Charge

A imagem resume, com ironia precisa, um dos grandes paradoxos da mobilidade urbana contemporânea: criamos o problema tentando fugir dele. Mais carros nas ruas em nome da segurança acabam gerando exatamente o ambiente que consideramos inseguro.


Ao ver a postagem, lembrei imediatamente de uma situação vivida anos atrás com minha filha, quando ela tinha cerca de três ou quatro anos. Para ela, o “passeio ideal” não era ir ao shopping ou entrar num carro novo — era sair de ônibus. O transporte coletivo, para aquela criança pequena, representava aventura, descoberta, observação do mundo.



Certa vez, estávamos voltando para casa de ônibus quando ela me fez uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente reveladora:

— Pai, por que no ônibus não tem cinto de segurança?

Eu estava nervoso naquele dia, por motivos que já nem lembro mais. E, tomado por uma resposta automática e infeliz, disse:

— Porque pobre não merece segurança.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Alguns instantes depois, já mais calmo — e talvez mais honesto comigo mesmo — voltei ao assunto e expliquei melhor: que o ônibus, estatisticamente, é um meio de transporte muito mais seguro do que o carro; que o risco individual é menor; que a lógica da segurança funciona de outra forma quando o transporte é coletivo.


Mas a primeira resposta escapou. E ela não escapou à toa.


Ela revelou um imaginário social profundamente enraizado: o de que conforto, cuidado e proteção são atributos do transporte individual, enquanto o transporte público ocupa, no máximo, o lugar do “necessário”, nunca do desejável.


Cursos de Trânsito e Transporte

Eu fui colocar os pés num carro quando já era quase adulto. Minha filha, por sua vez, saiu da maternidade de carro. Essa diferença geracional diz muito sobre como naturalizamos o automóvel como extensão da casa, da família e da segurança — mesmo quando os dados, a experiência urbana e a lógica coletiva apontam em outra direção.


Ainda hoje, quando falamos em conforto e segurança, o transporte público costuma ser a última opção que nos vem à cabeça. Não porque ele seja intrinsecamente inseguro, mas porque construímos cidades que o desvalorizam, ruas que o hostilizam e narrativas que o associam à falta, nunca à escolha. Um estudo do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) estima a taxa de mortes por bilhão de quilômetros percorridos por toda a frota de veículos rodoviários no Brasil entre 2011 e 2023. Em termos simples: para cada bilhão de quilômetros percorridos, a chance de morte envolvendo ônibus é dezenas de vezes menor do que envolvendo automóveis — e muito menor ainda que motos, que lideram o risco por distância percorrida.


Essa reflexão dialoga diretamente com um texto que publiquei anteriormente, no qual questiono o modelo de cidade que criamos ao abrir mão do espaço público em nome da fluidez dos carros:

Por ruas que possam voltar a ser lugar de criança”. Quando levamos crianças de carro porque “há muito trânsito”, talvez seja hora de inverter a pergunta: há muito trânsito para quem? E, principalmente, quem está produzindo esse trânsito?


Enquanto a resposta continuar sendo ignorada, seguiremos alimentando o ciclo em que a busca individual por segurança compromete a segurança coletiva — e onde a cidade deixa, pouco a pouco, de ser lugar de encontro, de autonomia e de infância.



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