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E foi assim que tudo terminou




Era uma vez uma vizinhança tranquila, num bairro residencial de uma cidade média do Brasil. Os lotes eram ocupados por residências com arquitetura típica de tempos passados e, assim como seus moradores, demonstravam nas fachadas as marcas da idade. As vias tinham pavimentação de paralelepípedos de granito, muitas árvores, calçadas bem definidas e tráfego esparso. Apesar de existirem vias próximas com ocupação comercial, aquela vizinhança permanecia com sua ambiência de cidade do interior.


O cotidiano transcorria de forma preguiçosa. No início da manhã uns moradores varriam suas calçadas. Pela hora do almoço recebiam alguns visitantes e no final da tarde outros faziam pequenas caminhadas até a padaria, a costureira ou o sapateiro.



Um dia, tudo começou a mudar. Agora, olhando para trás, é fácil concluir que o marco inicial foi a morte do Seu Walter do casarão branco. Que pena, depois de tantos anos morando nesta rua, o velhinho não teve como vencer a doença.


Passado um período de luto e outro de curiosidade sobre o destino da casa, descobriu-se que Fê, a Fernandinha, neta do Seu Walter, iria ocupar o prédio. Ao contrário do que todos imaginaram, ela não se mudou para lá, apenas abriu um pequeno restaurante com algumas receitas originais trazidas de sua estadia na Áustria. Um reles Bistrô, como ela dizia, que servia mais como distração e como forma de continuar em contato com a memória do seu avô.


No início os clientes eram apenas os colegas e amigos da Fê, mas aos poucos, com a eficácia da propaganda boca-a-boca, a clientela aumentou. Afinal a comida era excelente, o estacionamento fácil e o ambiente aprazível daquela via eram quase um oásis onde todos recarregavam as energias. Em pouco tempo as 12 mesas espalhadas pela varanda e pelo caramanchão estavam sempre ocupadas.


Uma de suas amigas, a Leka, ficou encantada com o charme da rua e decidiu alugar uma casinha desocupada no final da quadra para transformar em seu estúdio e uma pequena galeria de arte. Um dos clientes resolveu investir numa boulangerie. Para facilitar o acesso dos clientes, algumas árvores velhas que ocupavam os passeios foram removidas e o recuo de jardim foi pavimentado. Agora os raios de sol já podiam aquecer os passantes durante o inverno rigoroso.


Aos poucos, a atmosfera requintada foi atraindo novos negócios. Primeiro foi o barbeiro que fechou suas portas e foi substituído pelo Galery Coiffeur, que oferecia variados tipos de serviços, em horários mais flexíveis. Depois veio o escritório Bernardo Silva & Silva Advogados, especializado em causas ambientas e preservação da natureza. E na seqüência, foi a vez da Petty´s Shop, que ocupou uma das casas geminadas. Não tinha como errar a porta, afinal, a pintura verde limão e o neon na fachada eram uma indicação bastante clara.


A cada novo estabelecimento comercial, mais árvores eram removidas e jardins eram pavimentados. Os empreendedores adoravam a vibe da rua, mas não podiam impedir o acesso de seus clientes. O que podiam fazer? Um deles, até tentou resolver o problema de outra forma: comprou uma casa, derrubou as paredes, espalhou saibro e ofertou vagas de estacionamento. Para cobrir as despesas com o funcionário que fazia a segurança dos veículos foi obrigado a cobrar uma pequena taxa. Foi uma boa ideia, mas não supriu a demanda.


A Boutique das Carnes, que ocupou toda a esquina, improvisou um port-couchere sobre a calçada. Uma boa poda na vegetação existente, uma fina camada de asfalto sobre as lajes e uma pequena readequação irregular (também, para que projeto numa intervenção tão simples?) do rebaixo de garagem e pronto. Isso sim que é acessibilidade de primeiro mundo; os clientes podiam quase entrar de carro dentro do estabelecimento.


Quando o Theo Winermann comprou o casarão de azulejos e abriu o Theo´s Lounge Pub todos ficaram felizes, pois afinal teriam um espaço adequado para o happy hour. Ninguém lembrou de reclamar dos Atlantes que foram removidos da fachada para a instalação do split. A pedido dos clientes, uma música ao vivo tornou o ambiente ainda mais bacana. Não muito tempo depois, foi inaugurada a pista de dança, que ocupou o antigo jardim de inverno. Agora, a alegria podia se estender até o amanhecer. Pena que alguns poucos clientes, menos esclarecidos que a maioria, deixavam latas e garrafas espalhadas pela rua, urinavam nas árvores e gritavam pelas calçadas.


Mas nem tudo eram flores, pois os caminhões de abastecimento de bebidas sofriam com a tortuosidade das vias. Alguém fez uma reclamação no órgão de trânsito e, ao contrário do que todos esperavam, um engenheiro foi designado para solucionar os problemas. Agilmente, ele vistoriou a área e listou os problemas: conflitos nos cruzamentos, pouca oferta de vagas, dificuldades de travessia, etc. De forma célere, medidas foram tomadas: implantação de sentido único de circulação, proibição de estacionamentos, reserva de vagas para carga/descarga e semáforo para travessia de pedestres. A cereja do bolo para garantir a vitalidade comercial da região foi a implantação da Zona Azul, democratizando o acesso ao espaço público.


Na contramão do progresso, os moradores antigos começaram a se mudar, incomodados sabe-se lá com o que. Até foi bom, pois mais imóveis estavam disponíveis para o novo Soho. Estranho mesmo, foi quando o Bistrô da Fê fechou as portas. Depois de um tempo alguém falou que ela teve problemas com a fiscalização da Vigilância Sanitária, e concluiu que não valia a pena investir naquela casa velha para atender todas as exigências absurdas da Prefeitura.


Primeiro a Fê resolveu alugar a casa, mas parece que o lugar estava amaldiçoado. A Estética Zaphire não deu certo e logo fechou, a Enoteca Salvinatti durou pouco tempo e a lancheria natural Açaí Vigoroso não fez sucesso com a clientela. Logo o imóvel foi demolido e cedeu espaço a um pequeno Centro Empresarial de 4 andares. Foi fácil alugar as salas para profissionais autônomos que buscavam um endereço conceituado na cidade. Claro, que o estacionamento estava garantido no subsolo, afinal, era muito difícil estacionar naquelas redondezas.


Quando sai para caminhar no bairro a Dona Otília não reconhece mais nenhuma face, nem uma casa, não ouve mais os pássaros e nem se protege do sol sob os galhos de árvores. Fica um pouco incomodada com os novos obstáculos no seu trajeto: carros sobre o passeio, cavaletes com propagandas, motos, manchas de óleo e calçadas com pedras soltas. Na volta, sempre se pergunta: como esta rua tranquila se tornou assim? De quem é a culpa? Da ganância comercial, da ignorância dos cidadãos ou da complacência do poder público?


 


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